domingo, 18 de outubro de 2009

de como o domingo acaba.

A gente sempre se consola de alghuma maneira.
E ela, hoje, se consolava pensando que até às sete horas ainda é dia e que poderia ficar ali por mais um tempo olhando o mundo. Mas já eram quase sete e quase já era noite.

Ela só não queria perder seu domingo. E, para isso, acreditava que, ainda de folga, deveria se ocupar de algo produtivo ou construtivo: ir a uma exposição.

Na dúvida entre duas, optou por uma terceira e acabou indo a nenhuma e perguntou-se de onde herdara aquela tendência para desperdiçar dias escassos que eram para ser seus.
Na verdade, não tinha certeza se aquilo era mesmo um desperdício. Ela precisava dormir até às onze, precisava tomar um sorvete extravagante com todas as caldas do mundo, precisava pintar as unhas e tomar uma decisão de nível mediano. Aquele era o seu dia e ela precisava se arrumar, passar o perfume de passear, escovar os dentes com calma, se olhar no espelho e dizer: estou pronta!

Mas pensava... pronta para quê? Pronta para sentir frio num parque cheio de história e esperar seu dia acabar.

E quando acabasse, quando as luzes da cidade se acendessem, ela caminharia vagarosamente até o ponto e esperaria seu ônibus sem pressa, desejando que no caminho chovesse... Já que ela não tinha estreado seu sapatinho novo só porque o céu anunciara que naquela tarde choveria e também porque um banho de chuva ácida da cidade até que não seria tão mal...


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

entusiasmo

"O gosto do público é completamente falso, decididamente falso, procura o falso, o imitado, tão direta, tão certamente como o porco procura a trufa, de instinto invertido, infalível, a falsa grandeza, a falsa força, a falsa graça, a falsa virtude, o falso pudor, o hipócrita, a falsa obra-prima, o todo falso, incansavelmente.

De onde lhe vem esse gosto catastrófico? Antes de tudo, sobretudo, das escolas, da educação primária, da sabotagem do entusiasmo, das primitivas alegrias criativas, pelo empostado declamatório, pela cartonage moralística. (...)

Será que é complicado, singular, sobrenatural, ser artista? Muito pelo contrário! O complicado, o forçado, o singular é não ser.

Os professores, armados com o Programa, têm que fazer um longo esforço para amtar o artista que existe na criança. E não é só. As escolas funcionam com esse objetivo, são os lugares de tortura para aperfeita inocência, a alegria espontânea, o estrangulamento dos pássaros, a fabricação d euam tristeza que já escorre de todas as paredes, o grude social primitivo, o verniz que penetra em tudo, sufoca, mata para sempre toda a alegria de viver!"

Louis- Fernand Céline
















(Rafaela e Alice, 8 anos)

sábado, 10 de outubro de 2009

amendoim. amendoim doce.*

Não raro me pego pensando se minha vó tem mesmo razão quando diz que quero abraçar o mundo com as pernas. Me envolvo em tantas coisas e, em dias como esse, me encontro perdida entre obrigações, necessidades, desejos... a curto, médio e longo prazo. O trânsito às seis da tarde diminui muito o tempo e a disposição que tenho para pôr tudo isso em prática, mas acho que culpá-lo não solucionará e nem tornará mais confortável a cadeira em que me sento agora.
Desço do ônibus - lotado de executivos que gritam - e vejo a cidade toda parada. Caóticamente parada. As luzinhas vermelhas não iam e as amarelas não vinham* (e nem vice-versa). Preferindo andar um pouco mais a enfrentar a muvuca e fila no metro consolação, vou até a próxima estação... E no meio do caminho lembro da minha vontade guardada de comer amendoim. Amdendoim doce! O amendoim que deveria ser saboreado até a epifania. E em reclusão.
Sentada, no chão da estação clínicas e bem longe de executivos e médicos que habitam aquela região (nada pessoal...), criei meu momento "reflexão com amendoim. amendoim doce." e fui severamente punida por olhares reprovadores, de estranheza e indiferença. Então um pequeno garoto de blusa listrada de azul, passou e me sorriu com o sorriso mais compreensivo do mundo.

Esperei três ou quatro trens passarem até que meu amendoim doce chegasse ao fim. Não descobri coisa alguma além de banalidades a cerca de detestáveis botas sobre calça jeans, sobre meus cadarços sempre desamarrados e sobre minha febre de ontem.

Mas a verdade... ah, tenho certeza de que ela estava com o garotinho de listrado... e que, por alguma razão, ele achou melhor não me contar!


*luzinhas vermelhas indo e luzinhas amarelas vindo = uma avenida de mão dupla vista do lado de fora dos automóveis.


*[revivendo post de
29/05/2008]

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

*não, não fuja não...

Não, ninguém tente me convencer de que absolutamente tudo está tão instantâneo quanto msn, nescau e miojo. Eu me nego a aplicar isso a todos os tipos de relações humanas. Talvez eu seja ingênua demais ou démodé demais. Acreditar em algo sempre tem um preço.

Mas bem, falemos de amor... Acreditando nele ou não, acreditando no imediatismo dele, ou não. Acho que antes de um amor se concretizar, há uma intenção. Bem clichê mesmo. Há os olhos que se olham, frases indiretas e diretas quando escoltado por uma tela de computador e um teclado, depois as mãos que adquirem certa autonomia e se encontram como um teste de reciprocidade. Da próxima vez senta-se mais perto e assim por diante. Independente da velocidade em que isso acontece, não é nenhuma novidade como continua.
Variações sobre o mesmo tema. Ficamos programados e emoldurados esperando, não necessariamente com vestígios de romântico, algum tipo de satisação afetiva.
E dessa vez foi assim. Como num romance, chegou de mansinho e sem pedir licença. Só que não me olhou nos olhos nem tentou me confundir. Sentou-se logo a meu lado e conversou muito pouco. E também não se preocupou em saber se eu a olhava.
Já no segundo dia, não fui capaz de evitar que chegasse tão perto. Sentou-se sobre minhas pernas de índio e ali permaneceu, sem intenção alguma. Ali estava eu, estática, com uma criaturinha de 6 anos que cabia perfeitamente em mim. Ela se balançava animadamente e não esperava nada demim. Nada, nada. Nem uma resposta, nem um sinal, nem uma permissão ou pedido. Ela existia ali comigo e isso bastava.
Ela não interpretou erroneamente meu silêncio assustado, não planejava a ação seguinte, o próximo passo, analisando se triunfaria ou se ainda era cedo
É verdade, tive medo. Não sabia como agir. Estava num lugar onde nunca estive e do qual seria preciso sair. E eu não sabia como.
É estranho pensar como se torna natural deixarmos de ser naturais.
Eu não podia supor que alguém poderia chegar tão rápido, tão em silêncio e tão perto de mim. Quem já o fez levou, certamente, bem mais que anos.
E não é para parecer difícil e intocável que digo isso.
Depois que nos tornamos pessoas grandes o vento pode despentear os cabelos e então nos protegemos dele.


*título copiado de Ponto de Fuga

segunda-feira, 17 de agosto de 2009



"Deus está morto, Marx está morto, Freud está morto e eu não estou me sentindo muito bem"


maybe Woody Allen

sábado, 8 de agosto de 2009

enquanto seu lobo não vem...

A tarde de um sábado azul morreu através de um vidro com insulfilm.
Vi um balão. Batizei ele 1,2,3. Ele brilhava mas depois sumiu do alcance da minha vista.
Escureceu. O insulfim é menos imparcial à noite, deixa ver e ser visto.
Caminhei lentamente tentando retardar a volta pra casa. Parei na padaria bonita e pedi um doce sem perguntar o preço. E comi todo chocolate que evitei a semana inteira, de uma só vez. Mas por não saber o preço, não tive pressa. É geralmente a culpa e a gana que apressam. Ou não.
É uma bonita noite para estar sozinha. Aquela rua só tem loja de vestidos chiques e brilhantes e fiquei imaginando qual deles eu usaria se algum dia precisasse usar. É engraçado pensar em situações inusitadas. Vestir um vestido verde cintilante seria muito inusitado, mas foi ele que eu escolhi. Resolvido o problema inexistente, quis esperar um onibus que sequer sei se passa mesmo ali na rua cintilante de vestidos. Se passasse, tenho certeza que demoraria bastante pra chegar e eu nao precisaria me privar da noite e suas luzinhas. Mas ele nao passou ou eu nao tive paciência de esperar.
Não queria estar sozinha, mas queria menos pedir uma companhia. Há que se considerar, sábado à noite não é de estar livre para improvisos. Inevitavelmente, cheguei em casa. Tranquei as portas e deixe a noite la fora.
Olho meu quarto que nao tenho tempo para arrumar. Minhas paredes mofadas, minhas roupas jogadas, meus livros no chão. Eu não queria estar aqui agora. E só. Preciso, precisamos de mudanças. Urgente, urgente!
Cortar o cabelo já não basta...


terça-feira, 28 de julho de 2009

Brise Marine

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux!

Mallarmé


Brisa Marinha

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.


[tradução: Augusto de Campos]

domingo, 19 de julho de 2009

en.vol.ver-se



Sempre hesitei ao conjugar o verbo lidar.
Eu lido, tu lidas, ele lida. Nós lidamos.

Porque a língua portuguesa é cheia de maliciazinhas e particularidades e improvisos. Você não vai a lugar algum de escada. Mas se cê for d'iscada, aí sim chegará.
É mais macio falar assim. Apesar de tantas distinções, ainda dá pra considerar que a língua é uma das coisas que mantém a unidade de um país tão extenso como o nosso. Mas antes que pareça algum tipo de patriotismo, volto ao meu assunto inicial. Pois bem, é por essa amaciada que damos ao português falado que sempre foi uma dificuldade, pra mim, o lidar.

Eis o que me aflige: para conjugar o verbo transitivo direto e indireto dar devo pensar que "quem dá, dá alguma coisa a alguém" e é aqui que meu samba começa... O pronome oblíquo átono lhe tem função do objeto indireto e assim posso lhe dar um beijo, um presente, uma canção. Mas pronunciar o LHE e o LHI são tarefas quase impossíveis (repita três vezes seguidas e bem rápido o diminutivo da palavra velho) e acaba que o ato de lhe dar aproxima-se sonoramente de lidar. Agora, pensando em primeira pessoa, minha dúvida era se eu lidaria com isso, aquilo e o outro ou se eu medaria [ou, midaria, no português falado]. Tá, pode ser uma dúvida meio estúpida, mas eu a tinha.

Lidar tem aquela cara de jogo de cintura. De estar sempre cheio de tato, de dedos, pisar em ovos para aprender como se faz, como se lida. E isso cansa tanto! Acho que vou começar a conjugar errado. Se eu midou, me envolvo.
Já ouvi algum professor dizer que aprendizados são mais completos se há envolvimento físico, emocional, psicológico e o escabau.
Midarei
e pisarei os ovos.
E me darei por isso muito bem.

domingo, 12 de julho de 2009

vamos passear de guarda-chuva?



Machado de Assis, a mão e a luva, 1874


luva e mão, mão e luva... vamos passear de guarda chuva?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

plus tard, peut-être

é tão misterioso o país das lágrimas!!

sábado, 20 de junho de 2009

oh, darling...

Vontade incontrolável de ouvir Stand by me sem parar.
sem parar.
sem parar, satnd by me.




When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we see
No I won't be afraid
No I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me
And darling, darling stand by me
Oh, now, now, stand by me
Stand by me, stand by me

segunda-feira, 15 de junho de 2009

lumière



adoro as luzes da cidade à noite.
mas hoje me perguntei, ao olhar aqueles vários prédios comerciais amontoados...


... por que eles trabalham tanto ou por que não apagam as luzes ao sair?


mon amour dans une caisse de raisin, avec un abat-jour de lumière jaune.
moi, toi, une fleur et toutes les estampes de notre vie.

toi et moi à fleur de peau, dans la fleur de l'âge.
nous deux et trois et plus un vers. nous tous et l'univers,
à l'envers.



quinta-feira, 11 de junho de 2009

às gotas.

achei uns escritos engraçados num caderno antigo e vou posta-los porque estou sem tempo pra me dedicar a escritos novos.

não espere algo muito engraçado.
talez só tenha graça pra mim. e não é bem graça, é até bem idiota.

mas vamos a ele.


Era isso mesmo que eu queria. Que a chuva caisse um pouco sobre mim. Na verdade não queria ser muito moderada, mas tive medo de desejar muita chuva e gerar estragos na cidade. Eu queria estar do lado de fora pra sentir a particularidade de cada gota. Gostaria de me olhar por fora pra ter uma visão mais crítica de tudo o que faço e sou. Mas não, eu sou meio panaquinha.

escrito em 02/11/2008